Bombeiros pedem suspensão de regras para receber pacientes no Regional de Sinop e alertam para risco de morte

Foto: Secom

Um protocolo elaborado no âmbito do Consórcio Público de Saúde Vale do Teles Pires e da direção do Hospital Regional Jorge de Abreu colocou em confronto as regras de acesso à unidade e a avaliação de quem realiza o resgate de vítimas. Em manifestação oficial, o Corpo de Bombeiros de Sinop aponta que as exigências podem atrasar o atendimento de pacientes graves, comprometer a disponibilidade de ambulâncias e colocar vidas em risco.

Datado de 6 de outubro de 2026, o documento determina contato prévio com o Núcleo Interno de Regulação do hospital, o NIR, antes do encaminhamento de pacientes classificados como “vaga zero”. O procedimento também prevê a possibilidade de não aceite, reclassificação de risco e orientação para transporte a outro serviço da rede municipal.

O fluxo tem assinaturas identificadas como representantes da Secretaria de Estado de Saúde e do consórcio. A participação de ambos coloca uma cobrança direta sobre o governo estadual: explicar como as exigências estabelecidas para organizar o acesso ao hospital preservam a segurança de pacientes que precisam de atendimento imediato.

Bombeiros dizem que foram excluídos da elaboração

A contestação está no Ofício nº 10325/2026, de 26 de outubro, assinado pelo major Lucas de Sousa Brito, comandante do 4º Batalhão Bombeiro Militar.

Segundo o comandante, a corporação não foi convidada a participar da elaboração do fluxo, embora o documento interfira diretamente em sua operação e lhe atribua responsabilidades.

A ausência apontada expõe uma falha de articulação: foram estabelecidas regras para o encaminhamento de vítimas sem a participação do serviço responsável pelo atendimento pré-hospitalar em Sinop desde 1998.

O ofício informa que a estrutura regional dos Bombeiros já dispõe de uma central de regulação com médico regulador durante 24 horas e atuação em 23 municípios. Para a corporação, submeter uma decisão dessa central a uma nova autorização do hospital cria duplicidade de regulação e inverte a hierarquia do atendimento de urgência.

Protocolo permite recusa e mudança na classificação de risco

O fluxo estabelece que o NIR pode considerar que o quadro clínico não se enquadra no rol de atendimentos de vaga zero do Regional, redefinir a classificação de risco e orientar o médico regulador dos Bombeiros a encaminhar o paciente para outro serviço municipal.

É nesse ponto que a divergência deixa de ser apenas administrativa.

Os Bombeiros sustentam que a definição do destino deve considerar os recursos necessários ao atendimento da vítima. Encaminhá-la a uma unidade sem essa capacidade, adverte o comandante, “submete a vítima a risco de vida”.

A corporação também afirma que condicionar o encaminhamento à disponibilidade de vaga contraria a sistemática da regulação de urgência descrita nas normas citadas em sua manifestação. Segundo o ofício, a vaga zero permite direcionar pacientes graves ao recurso assistencial necessário mesmo diante da indisponibilidade de leitos, mediante decisão do médico regulador.

A crítica dos Bombeiros envolve, portanto, o poder de decisão: quem define o destino de uma vítima grave e quais garantias existem quando o hospital não aceita recebê-la?

Critérios para fraturas também são questionados

Outro ponto contestado envolve o trauma ortopédico grave. Na coluna de critérios de referência, o protocolo relaciona bacia, pelve, fêmur bilateral e fêmur associado à tíbia.

Segundo os Bombeiros, essa delimitação exclui a fratura isolada de um único fêmur e desconsidera a possibilidade de perda sanguínea significativa, choque hemorrágico e complicações potencialmente fatais.

A corporação também critica a avaliação insuficiente das circunstâncias do acidente e do mecanismo do trauma, que podem indicar lesões graves ainda não evidentes no primeiro atendimento.

Demora pode comprometer novos resgates

O impacto apontado alcança outras pessoas que dependem do socorro. Conforme o comandante, a exigência de contato e aceite antes do deslocamento tende a retardar o atendimento definitivo e prolongar o tempo de ocupação das equipes.

Com as viaturas empenhadas por mais tempo, pode haver redução da disponibilidade para novas ocorrências em Sinop e na região.

Os dados apresentados dimensionam a relação entre os serviços: de 1º de janeiro a 20 de outubro, os Bombeiros registraram mais de 4.117 vítimas atendidas com encaminhamento hospitalar no município. Dessas, 993 foram destinadas ao Regional, aproximadamente 24% do total.

Estado e consórcio precisam explicar as garantias do fluxo

A Secretaria Municipal de Saúde encaminhou o protocolo para divulgação em 7 de outubro. Após a contestação dos Bombeiros, enviou a manifestação ao diretor-geral do Regional, Fábio Henrique do Lago, em 29 de outubro.

O comandante pediu que a secretaria requeresse a suspensão do fluxo para as ocorrências atendidas pelos Bombeiros e já reguladas pela central médica. Informou ainda que, até uma deliberação conjunta, a corporação manteria os procedimentos anteriormente praticados.

A documentação expõe uma contradição que exige resposta do Estado e do consórcio: um instrumento apresentado para organizar o acesso ao hospital é apontado pelo próprio serviço de resgate como fator de atraso e risco.

Cabe aos responsáveis esclarecer qual estrutura receberá os pacientes redirecionados, como será garantida a capacidade de atendimento dessas unidades e quem decidirá diante de divergência entre os médicos reguladores.

Os documentos analisados não comprovam mortes ou recusas concretas decorrentes do protocolo, nem apresentam uma resposta posterior do Estado ou do consórcio às objeções. Comprovam, porém, um alerta formal dos Bombeiros sobre riscos à vida — e um pedido de suspensão que exige manifestação clara dos responsáveis.

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