
O fortalecimento do El Niño ao longo dos próximos meses deve aumentar os desafios para produtores rurais do Centro-Oeste. Em uma época do ano naturalmente marcada pela redução das chuvas, a expectativa é de temperaturas acima da média em importantes áreas produtoras de Mato Grosso e Goiás, condição que pode acelerar a perda de umidade do solo e ampliar os efeitos da estiagem típica do inverno.
Segundo a meteorologista Estael Sias, junho já integra o trimestre de inverno do ponto de vista climático, independentemente da chegada oficial da estação pelo calendário astronômico. Conforme a especialista, este é o período mais seco do ano na região e o comportamento observado nas próximas semanas está dentro desse padrão.
“Na prática, já estamos no inverno e é o período mais seco realmente do Centro-Oeste”, afirmou.
De acordo com a meteorologista, o principal impacto do El Niño para o Centro-Oeste não será necessariamente a redução das chuvas, mas o aumento das temperaturas. O fenômeno climático está em fortalecimento e deve alcançar seu ápice entre outubro e dezembro.
“O El Niño, a partir de agora, ganha força e o ápice da atuação vai acontecer ali entre outubro e dezembro”, explicou.
Estael destacou que a elevação da temperatura ocorre justamente durante o período em que a chuva já é naturalmente escassa na região. Essa combinação tende a agravar os efeitos da estiagem sobre as áreas produtivas.
“No Centro-Oeste tem um impacto importante no padrão de temperatura, que fica mais alta. A temperatura mais alta nesse período de estiagem normal de inverno realmente acaba agravando os efeitos da escassez de chuva”, ressaltou.
Déficit hídrico preocupa lavouras e pastagens
A meteorologista chamou atenção para os reflexos desse cenário sobre a produção agropecuária. Segundo ela, o aumento do calor favorece a redução da umidade disponível no solo, acelerando o déficit hídrico em diferentes sistemas produtivos.
“Isso acaba criando uma condição de redução da umidade do solo. O déficit hídrico é acelerado”, afirmou.
A preocupação não se limita às lavouras. Conforme destacou Estael, a pecuária também pode sentir os efeitos do padrão climático previsto para os próximos meses.
“Não falo só da questão das lavouras, mas também para a agropecuária. Para as pastagens tem um impacto importante esse padrão de temperatura mais alto do que o normal”, disse.
Outro fator observado pelos meteorologistas é a situação dos reservatórios e mananciais em algumas áreas da região. Segundo a especialista, a estação chuvosa não foi suficiente para recuperar plenamente as reservas hídricas, especialmente em parte do norte do Centro-Oeste.
Reservatórios não se recuperaram totalmente
Estael destacou que a disponibilidade de água armazenada merece atenção ao longo da estação seca. Em algumas localidades, os volumes acumulados durante o período chuvoso ficaram abaixo do necessário para recompor integralmente os mananciais.
“A chuva de verão não recuperou os mananciais a contento, principalmente nessas áreas mais do norte”, afirmou.
De acordo com a meteorologista, esse quadro pode ganhar importância à medida que o calor aumenta durante o inverno e o início da primavera. A combinação entre temperaturas elevadas e precipitações reduzidas tende a prolongar os efeitos da escassez hídrica.
“Esse período de calor, de temperatura acima da média, pode lá no final do inverno e no começo da primavera trazer alguma condição que impacta diferentes fases das culturas típicas desta época do ano”, explicou.
Mato Grosso do Sul terá comportamento diferente
Embora o padrão predominante seja de tempo seco na maior parte do Centro-Oeste, Mato Grosso do Sul deve apresentar comportamento distinto nas próximas semanas. Segundo Estael, o estado continuará recebendo episódios de chuva, ainda que de forma irregular.
“A chuva tem sido mais frequente no Mato Grosso do Sul”, observou.
A previsão indica pancadas entre sexta-feira e sábado, principalmente no sul e sudoeste do estado. Municípios como Dourados, Porto Murtinho e áreas próximas de Corumbá podem registrar os maiores acumulados.
“Na sexta-feira, o sudeste de Mato Grosso do Sul recebe algumas pancadas de chuva. Dourados, por exemplo, com 10 milímetros. Porto Murtinho poderá ter até acumulados maiores”, destacou.
Temporais isolados podem ocorrer
Além da chuva, a meteorologista alertou para a possibilidade de eventos localizados de maior intensidade. O avanço de frentes frias e a interação com o ar frio em altitude podem favorecer temporais isolados.
“O Mato Grosso do Sul pode ter alguns temporais isolados na sexta e no sábado”, afirmou.
Em Dourados, os produtores devem acompanhar as atualizações meteorológicas devido ao risco de chuva forte. “Tem risco de temporais, chuva forte e até alguma situação de granizo”, alertou.
Mesmo com esses episódios, a especialista destacou que Mato Grosso do Sul será uma exceção dentro do Centro-Oeste. “Mato Grosso do Sul parece que vai ter um inverno mais úmido mesmo. Goiás e Mato Grosso seguirão o padrão típico e com temperatura acima da média em razão da influência do El Niño”, concluiu.
Michele Jardim | Notícias Agrícolas



























