As chuvas intensas registradas em Mato Grosso nas últimas semanas vêm impondo desafios importantes à produção de algodão no estado, especialmente na segunda safra, que responde por cerca de 80% da área cultivada. O alto volume de precipitações tem atrasado a colheita da soja e, consequentemente, a implantação do algodão, além de prejudicar a emergência e o estabelecimento inicial das plantas no campo.
De acordo com o engenheiro agrônomo Márcio de Souza, coordenador de projetos do Instituto Matogrossense do Algodão (IMAmt), o excesso de umidade no solo já provoca reflexos diretos na condução das lavouras. “O excesso de chuvas tem impactado no rendimento da colheita da soja, atrasando consecutivamente a finalização do plantio do algodão de segunda safra, além de dificultar o estabelecimento do estande por conta de doenças de solo”, explica.
O atraso no plantio aumenta a dependência do regime de chuvas ao longo do ciclo e eleva o risco de perdas. Em áreas fora da janela ideal, a produtividade e a qualidade da fibra passam a depender da regularidade das precipitações na fase final de formação das maçãs. Caso esse volume não se confirme, o potencial produtivo pode ser comprometido.
Na avaliação do consultor Ueverton Rizzi, especialista em produção de sementes de algodão, o impacto das chuvas varia conforme a época de semeadura. Ele lembra que, na safra 2025/26, Mato Grosso deve cultivar entre 1,35 milhão e 1,4 milhão de hectares de algodão, sendo a maior parte implantada na segunda safra. “O excesso de chuva tem prejudicado principalmente a emergência das plântulas, favorecendo doenças como tombamento e mela, o que acaba exigindo replantio e estendendo ainda mais a janela de plantio”, afirma.
Em algumas regiões, como o Parecis, os volumes ultrapassaram 570 milímetros em janeiro, bem acima da média. Esse cenário agrava as falhas no estande e aumenta a dependência das chuvas nos meses de maio e junho para que o algodão consiga expressar bom potencial produtivo.
Além dos impactos agronômicos, o excesso de precipitações também pressiona os custos de produção. O alongamento do ciclo pode exigir maior uso de inseticidas e fungicidas, além de gerar perdas de nutrientes aplicados via adubação. No caso de segunda safra,o replantio representa um custo adicional relevante, já que a semente de algodão possui alto valor agregado.
Para reduzir os prejuízos, a principal recomendação técnica é o respeito à janela ideal de plantio de cada região. Márcio de Souza reforça que “o produtor deve se basear no histórico regional e manter a qualidade da implantação da lavoura, utilizando cultivares adequadas para a finalização do ciclo”. O bom tratamento de sementes também é apontado como fundamental para proteger as plântulas no início do desenvolvimento.
Mesmo diante de mais uma safra considerada atípica, a expectativa do setor é de cautela. Com manejo adequado e condições climáticas mais favoráveis nos próximos meses, parte do potencial produtivo ainda pode ser preservada. O desafio, segundo técnicos, será equilibrar custos, calendário e sanidade da lavoura em um cenário de alta variabilidade climática.
Priscila Alves | Notícias Agrícolas



























